Por uma Ecologia dos Modelos de Intervenção Social (2)

“Trabalhar menos, trabalhar melhor

O imenso desafio que hoje se coloca a uma sociedade, face a tal objetivo – a constituição deman-vs-machine quadros sociais novos, capazes de assegurarem sociedades mais fraternas, de cidadãos com mais qualidade de vida e maiores níveis de felicidade – é o da reorganização da produção, de acordo com objetivos estratégicos. E essa reorganização pressupõe duas escolhas, necessariamente alternativas. Trata-se de uma opção entre dois modelos de desenvolvimento: um assente em mão-de-obra intensiva e emprego; outro na aposta em inovação e novas tecnologias, caso em que os investimentos se orientam sobretudo para a automação e para nichos de mão-de-obra altamente diferenciada.

A primeira escolha, mais sedutora sob o ponto de vista conjuntural, condena o tecido produtivo à competição com modelos mais atrasados; a segunda aponta claramente para um novo paradigma produtivo com baixos níveis de empregabilidade, é certo, mas com elevados níveis de diferenciação da mão-de-obra, aproximando estruturalmente o tecido produtivo dos níveis praticados em sociedades mais desenvolvidas. Se a primeira das opções nos orienta para um modelo conhecido, já a segunda exige uma alteração profunda de referências na organização do trabalho, enquanto fator socialmente estruturante e implica uma forte aposta na mudança de paradigma de educação, de formação e de qualificação dos cidadãos. Uma educação que, necessariamente, prepare para um período de transição, assente em novos valores, em que a cidadania ativa, participada e responsável, assume um peso específico. Uma formação orientada para um mercado de trabalho cada vez mais exigente, em função de uma oferta, por um lado, progressivamente mais reduzida, por via de tecnologias de ponta que reduzem a participação humana nos processos produtivos e, por outro, a alargar-se a novas áreas de atividades muito próximas do triângulo de serviços que suportam o emergente setor social – cuidar de si, cuidar do próximo e interagir harmoniosamente com o meio ambiente. Uma qualificação para a vida e para a aprendizagem do lazer e a fruição dos tempos livres, incluindo participação em projetos de intervenção comunitária, com elevados níveis de utilidade social que respondem a novas e emergentes necessidades da comunidade.

Tudo em função de uma nova realidade, em que o tradicional mercado de trabalho sofre uma profunda mutação.

Espera-se cada vez menos intervenção humana. Da agricultura à indústria, da automação industrial ao setor terciário de serviços, da expansão da tecnologia digital, aplicada à telemática e apoiada num cortejo de desintermediação, todos os sinais apontam para o progressivo esgotamento das ofertas que tenderão a restringir-se ao trabalho intelectual criativo e inventivo e às prestações que, pela sua natureza específica, envolvem relações humanas de proximidade.

Há alguns dias, ouvi alguém, em exercício de funções de responsabilidade, dizer que era necessário investir em projetos inovadores, de mão-de-obra intensiva e longe de uma política de baixos salários.

Dei comigo a pensar em como este seria uma espécie de caminho único num universo ideal, mas impossível de concretizar no tempo global que vivemos. Importa, pois, optar e esse é o maior dos desafios que procuro refletir.”

Texto, parte (2), editado na Revista HUMANIDADES 9, DEZ2003

Sam Maloof Woodworking - Chair 2009

Este é hoje, como já se previa há mais de dez anos, um enorme desafio, sobretudo num quadro de globalização, em que a competitividade não dá mostras de afrouxar, mas em que as assimetrias se acentuam com situações limite e extremadas.

Criada a máquina da felicidade para alguns, o robot para outros, importa avaliar se as tecnologias libertarão o homem do trabalho ou se, ao contrário, o robotizarão à imagem da criatura por si criada, tornando-o energia escravizada numa sociedade do trabalho.

Parece assim estar a acontecer, em nome do paradigma competitivo.

A questão emergente é saber-se que uso os humanos farão dos resultados do seu génio criativo?  trh_thumb[3]

O recurso à tecnologia, exige cada vez menos mão-de-obra para a realização do trabalho produtivo. E só a ambição do lucro máximo estará a determinar a segunda das escolhas, assente na competitividade.

É portanto possível, ousar imaginar – como Agostinho da Silva diz na Entrevista a Antónia de Sousa, O Império Acabou. E Agora? – “… que um dia vai chegar a ter no mundo toda a produção que for necessária sem a obrigatoriedade do trabalho humano…”

Agostinho da Silva, de quem andei tão perto ali pela Travessa de Abarracamento de Peniche, onde tinha a sua residência, mesmo em frente à sede da Comissão Nacional para a Humanização e Qualidade dos Serviços de Saúde a que presidi, é para mim uma fonte de inesgotável inspiração, pela clareza do pensamento, pela ousadia das propostas, pela liberdade que exibe, mas também pela coerência de vida que assumiu.

Antónia de Sousa testemunha ser ele “um dos raros homens que transportam em si a semente do futuro”.

Estou, pois, a beber muito boa água na fonte que me inspira e a que recorro com frequência.

Mas não nos equivoquemos. A ambição humana, continua a ser o maior obstáculo a que o homem usufrua plenamente dos potenciais benefícios do seu génio.

A profunda reorganização da produção global deve então assentar num novo paradigma, a coopetição, que dê lugar a sistemas de economia mais afáveis com as necessidades dos indivíduos e das suas comunidades, baseado em referências de convivência, cooperação e solidariedade.

O estabelecimento de equilíbrios que prossiga o objetivo de assegurar, entre a coopetição e a sustentabilidade, a dignidade humana a um cada vez maior número de indivíduos, independentemente, das nações ou dos regimes.

Por via desta reorganização da produção, sob o signo da cooperação e da solidariedade, será viável a progressiva absorção de excedentes de mão-de-obra indiferenciada em regiões mais deprimidas, que assegure aos indivíduos e às famílias sustentabilidade e às economias dinâmica de desenvolvimento.

O valor do cuidar – cuidar de si, cuidar do outro e cuidar do ambiente – integrado num sector social conceptualmente renovado, será plataforma de eleição para a valorização da dignidade humana.

Trabalhar menos será inevitável. Trabalhar melhor, uma meta a alcançar, através da ferramenta da qualificação continua e voluntária de cada individuo, responsável por uma contribuição para a comunidade.

José Luís Gil

Poderá encontrar aqui a 1ª parte deste artigo:
“Por uma Ecologia dos Modelos de Intervenção Social (1)
Os Dinossauros e as Borboletas”

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LEONOR BELEZA – Entre a luz de Lisboa e o brilho da Ciência

Leonor_BelezaOuvir Leonor Beleza a falar da Fundação D. Anna de Sommer Champalimaud e Dr. Carlos Montez Champalimaud é um tão grande privilégio que bem merecia que o ouvinte fosse um Jornalista credenciado. Mas a HUMANIDADES e o seu Presidente, o Dr. José Luís Gil, escolheram-me e eu lá fui, travestido de jornalista sem carteira profissional, ouvir a 05 Daniel SerraoPresidente desta Fundação; que é uma das que o poder político decidiu não extinguir – se é que extinguiu alguma; e parece que há largas centenas de Fundações que o não são, de facto, mas apenas usam esta figura jurídica, nem sempre pelos melhores motivos.

Fui recebido com fidalga gentileza e Leonor Beleza fez questão de, antes da entrevista, me mostrar, ao vivo, o que é o Centro cujo nome em inglês é “Centre for Unknown”. Ou seja Centro para procurar o que ainda se não conhece.

Foi uma deambulação fascinante.

Assisti à inauguração em 5 de Outubro de 2010 e recordo ter escrito estas frases:

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“O momento de abrir os painéis e aparecer o Tejo foi sublime.

E quando, ao pronunciar o seu discurso o vento lhe agitava o cabelo, com as águas do Tejo em fundo, pareceu-me estar a ver a representação da deusa Iemanjá que acalentou o sonho dos escravos negros de que o mar, um dia, os levaria de volta para as suas terras africanas.

Como deusa dos tempos modernos, vai acalentar outros sonhos: vencer o desconhecido na metastização neoplástica e descobrir como é que este meu cérebro está ditar-me estas palavras para com elas representar as ideias que a visão da cerimónia magnífica fez nascer em mim”.

Mas nesse dia o Centro era ainda um embrião que começava a desenvolver-se num “útero” muito favorável e, portanto, sem risco de abortar.

Agora, bem nascido, a Mãe mostrava-o já crescido e, como todas as Mães, muito orgulhosa por o sentir já um adulto forte e audacioso.

Ver os Laboratórios de investigação com o mais moderno equipamento, sobre o qual se debruçavam investigadores jovens, e as áreas de diagnóstico por imagem da doença oncológica com os mais avançados equipamentos, de um belo design e uma eficácia rigorosa, foi ter a certeza de estar na linha da frente do combate ao cancro; e assistir aos tratamentos de quimioterapia num espaço amplo, moderno, que perece o foyer de um Teatro de Ópera, onde os espectadores, no intervalo, conversavam do sucesso da prima dona, revelou-me o autêntico sentido da humanização do atendimento de pessoas doentes que, antes de doentes, são pessoas, com as suas diversas biografias.

DSC_2431_WEB_1Mater et magistra, Leonor Beleza conhece todos os seus investigadores, oriundos de Países, cujas Bandeiras figuram no átrio do majestoso edifício desenhado por um Arquiteto com genes portugueses; Charles Correa, de ascendência goesa, soube interpretar de forma magnífica o desejo (ou o sonho?) de Leonor Beleza que era o de ter um edifício voltado para o Tejo. Porque era daqui que os Portugueses partiam à descoberta do que não se conhecia, “por mares nunca dantes navegados”, e agora partiriam os seus investigadores por outros mares desconhecidos como os da Oncologia e da Neurobiologia. E também da visão.

A luz – a maravilhosa luz de Lisboa, que as águas do Tejo refletem e irisam, e que é, para Damásio, a poderosa metáfora da consciência cognitiva – inunda todo o edifício e será o grande estímulo para os cérebros criativos que Leonor Beleza acolhe no Centro para o desconhecido.

Terminei a longa visita a todo o Centro com o sentimento de ter viajado por um universo quase galáctico “onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro “ (Álvaro de Campos). E com este sentimento comecei a entrevista.

Daniel Serrão – sabe, Dr.ª Leonor Beleza, o que se passou na cabeça de António Champalimaud para gizar esta Fundação, da forma como o fez no seu testamento, no qual afetou à futura Fundação a chamada “cota disponível” da sua fortuna pessoal?

Leonor Beleza – sinceramente não sei e ninguém o saberá. Quis seguramente honrar a memória de seus pais e por isso o nome da Fundação é D. Anna Sommer e Dr. Carlos Montez Champalimaud. E quis também que a Fundação se dedicasse à investigação médica, impulsionando o progresso científico.

JARDIM ANNA SOMMERD.S. – é sabido que o Dr. Proença de Carvalho, grande Advogado e íntimo conselheiro de António Champalimaud, terá tido conhecimento que o testamento iria indicar a Presidente da Fundação que seria a Dr.ª Leonor Beleza, certo?

L.B. – certo. Mas eu não fiz sozinha todo o trabalho de conceber a Fundação, fixando os seus objetivos principais e a materialização física do Centro neste edifício em que estamos. Tive o apoio de João Silveira Botelho e António Borges, depois António Horta Osório, na Administração e de um Conselho de Curadores internacional do mais alto nível científico. A Fundação foi perspetivada para se abrir a todo o mundo científico, sem escolhas limitativas de nacionalidades dos investigadores. O local de trabalho está situado, como espaço físico, em Lisboa mas o espaço criativo dos investigadores é a Ciência, que não tem fronteiras nem nacionalidade.

D.S. – mas como se inspirou para chegar a este resultado excecional que é o Centro?

L.B. – vou-lhe responder com todo o rigor. Fiz uma reflexão profunda para tentar descobrir como Champalimaud, com as suas características pessoais e o seu sucesso como criador de grandes empresas, mesmo em situações desfavoráveis externas, faria se tivesse decidido pôr em marcha uma Fundação. E concluí que ele exigiria que tivesse objetivos muito concretos e definidos, que fosse eficiente e eficaz e que apresentasse uma muito boa relação entre custos e resultados. Nada de ostentações ocas, de despesas sumptuárias, de escolhas condicionadas por motivos menores ou paroquiais; inteiramente transparente perante todos.

CENTROCHAMPALIMOU10022012130Por isto a seleção de investigadores é um processo aberto ao mundo científico e todos os que entram, passam por uma avaliação independente e multo rigorosa. Em consequência deste rigor, o Centre Champalimaud for the Unknown foi recentemente considerado como o melhor local de trabalho para os jovens investigadores. Temos neste momento 160 investigadores, de 30 nacionalidades diferentes no Programa de Neurociências; não inclui médicos que são 55. O Diretor, Prof. Zvi Fucks é um investigador oncológico, reconhecido em todo o Mundo, formado pela Hadassad Medical School, de Israel.

D.S. – e o Prémio Champalimaud, que julgo ser de um milhão de euros, como aparece?

L.B. – nada teve a ver com as dificuldades visuais que afligiram António Champalimaud no final da sua vida. Pensei que havendo tanta cegueira evitável e curável no Mundo, Champalimaud ficaria feliz por a sua Fundação dedicar uma parte importante do seu dinheiro a este campo da Ciência Médica. Assim, além de fomentar a investigação interna em Oftalmologia decidi criar este Prémio que tem sido atribuído anualmente, por um Júri Internacional, a instituições dedicadas ao tratamento da cegueira ou à sua prevenção. O primeiro foi para a Aravind Eye Care System, na Índia, e os seguintes têm contemplado instituições noutras partes do Mundo com resultados concretos reconhecidos pela comunidade Internacional. O Premio está a permitir-lhes irem mais além e conseguirem mais resultados; são muitos milhares os cegos que readquiriram a visão graças a este Prémio. Champalimaud aplaudiria este excelente resultado que corrige as evidentes desigualdades sociais no acesso à prevenção e, sobretudo, à cura da cegueira.

D.S. – vejo que o Centro está já a navegar em velocidade de cruzeiro. Como perspetiva o futuro?

L.B. – continuaremos nesta linha de ação que tem dado frutos muito positivos e visíveis. Mas manteremos a melhor atenção ao aparecimento de novas tecnologias, em especial no diagnóstico e no tratamento do cancro, para nos mantermos na primeira linha e sermos competitivos a nível mundial; mas também no conhecimento do cérebro pois os meios de imagem não invasores progridem muito rapidamente e eu quero que os Investigadores do Centro tenham acesso rápido ao equipamento mais avançado, para que os seus resultados sejam aceites nas revistas mais exigentes. Penso que devo esta postura à dedicação e qualidade com que todos eles trabalham no Centro, à procura do desconhecido e na esperança de o encontrar.

D.S. – cara Presidente Leonor Beleza, deixe-me que lhe transmita o melhor agradecimento da HUMANIDADES por ter concedido esta entrevista para o seu jornal on-line; que espero ajude os portugueses a conhecerem melhor a Fundação e a sua Obra tão positiva e qualificada, realizada em tão poucos anos de existência.

L.B. – eu é que agradeço a oportunidade que me deram de poder mostrar o trabalho que aqui se faz, no dia-a-dia, com investigadores e com os doentes; pois toda a investigação sai dos laboratórios para os doentes e regressa dos doentes aos laboratórios, numa incessante e mutuamente fecundante troca de informações e de resultados.

Saí do Centro para o deslumbrante e vibrante Sol, nesta zona Ocidental de Lisboa, debruçada no rio, ainda livre de construções em altura, e deu-me vontade de dizer, com Campos “Ó macio Tejo ancestral e mudo, /Eterna verdade onde o céu se reflecte!”.

Porque o que acabei de ver, à beira do Tejo, é a verdade de uma Obra, o Centro, a verdade de uma Pessoa, Leonor Beleza, e a verdade de um Visionário do futuro, António Champalimaud.

Daniel Serrão

Por uma Ecologia dos Modelos de Intervenção Social (1)

stock-footage-yellow-colored-butterfly-sitting-calmly-on-young-child-s-hand“Os Dinossauros e as Borboletas

Há cerca de oito anos, cumpridos dois terços da minha vida profissional ativa, fui confrontado, entre as minhas leituras, com um texto de Peter Druker sobre a vida ativa e a necessidade de a repartirmos por duas fases distintas, entre a atividade profissional e a outra, orientada para o trabalho social, com base num forte sentimento de fraternidade e como forma de cidadania ativa.

Inclinado a ver nos acasos alguma sincronicidade – neste caso a similitude entre a recomendação do autor e a minha própria experiência – passo a explicar algumas das interrogações, mais que reflexões ou convicções, a que essa experiência me tem conduzido.

A primeira questão estratégica que defrontei foi a da escolha entre uma atividade mais tradicional, assente num conceito de fazer bem, solidário é certo, mas orientado para uma ideia ainda muito próxima da caridade e, em alternativa, seguir de perto a inovação, bem mais na via de um novo método de partilha, mais equânime, de bens essenciais, como o conhecimento, o trabalho e o lazer, a riqueza e, porque não, o poder.

De imediato, fui assaltado por uma forte sensação de impotência. Este era, sem dúvida, o caminho mais difícil, porque virgem, por desbravar, inóspito, rejeitado pelos consensos gerais, fora das rotas dos poderes instituídos e das opiniões dominantes.

Apesar de alguns projetos, programas e planos estratégicos, induzirem as sociedades a orientarem-se para novos métodos de partilha, promovendo a fraternidade, a equidade e a cidadania, o status social estabelecido – desde os operadores no terreno, até aos governantes e líderes estratégicos, passando por um dos novos poderes que é a comunicação social – teima em subvalorizar os sinais do tempo que apontam caminhos de rutura com modelos de um passado demasiado recente.

Parece evidente que merecerá a todos concordância, o abrangente objetivo de se constituírem quadros sociais novos, capazes de assegurarem sociedades mais fraternas, de cidadãos com mais qualidade de vida e maiores níveis de felicidade.”

Texto, parte (1), editado na Revista HUMANIDADES 9, DEZ2003

Synchronicity-21

Hoje, passados mais de doze anos sobre esta primeira abordagem – Os Dinossauros e as Borboletas – do texto Por uma Ecologia dos Sistemas de Intervenção Social – mantenho as interrogações de então e reforço a convicção da urgência de se encontrarem novos modelos de intervenção social.

Mas uma resposta está dada.

O caminho que eu próprio segui e que está expresso no trabalho que hoje se faz na Associação Humanidades, é o da segunda alternativa, então colocada, de inovar na procura de novos métodos de partilha, orientados para setores da comunidade em situações de risco.

Claro que nos mantemos ancorados a modelos de avaliação e financiamento – indispensável para o prosseguir de uma atividade que assenta numa estrutura profissionalizada – ainda muito enquadrados por visões conservadoras mas, sobretudo a sociedade civil, começa a dar algumas respostas encorajadoras.

A correção da opção tomada é hoje, pois, uma convicção reforçada, tanto mais segura, quanto a gratificação recebida aumenta à medida dos pequenos avanços no sentido global da mudança e da influência que ela vai exercendo sobre os sistemas sociais.

Mas, para obtermos tal convicção, bastaria que nos interrogássemos, se será compensador que se continuem a validar e, consequentemente, se coloquem fundos de pesado valor social nos sistemas tradicionais que ao contrário de cumprirem a missão que justifica a sua existência e, independentemente, dos benefícios conjunturais distribuídos, aprofundam as desigualdades e as assimetrias, dando estruturalmente retornos nulos, quando não, negativos.

A mudança continua presa a âncoras e amarras determinadas pelos “consensos gerais”, sub-reptícia e até explicitamente, comandados pelo status estabelecido.

Quais dinossauros mantemo-nos vítimas do peso majestático dos modelos vigentes.

Se borboletas agilizaremos o bater das asas da inovação e da criatividade, de modo sustentado, em busca de novos modelos que assegurem os tão desejados valores e referências humanistas.

Libertemo-nos da mitificação de uma coerência imobilista e acrítica num tempo de velozes mudanças que sopram como rajadas, em modo de crise que se mantem latente, com dolorosos picos de erupções conjunturais.

Da impotência e das angústias, da frustração geral que nos amarra, sejamos, então audazes, ainda que correndo o risco inerente à metamorfose, para batermos harmoniosamente as asas, rumo a um futuro com que sonhamos.

José Luís Gil