A Criança o Elefante e a Utopia de Ser Feliz

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“A utopia é, não o impossível,
mas tão só o que ainda não aconteceu”
Agostinho da Silva

 

Impossível!?

Em que nos baseamos quando dizemos que não conseguimos ou que não podemos?

**“Quando eu era criança adorava o circo e sobretudo os animais. Chamava-me especialmente a atenção o elefante que, ao que parece, era também o animal preferido pelas outras crianças.

Durante o espectáculo, o animal fazia gala em exibir um peso, um tamanho e uma força descomunais. Mas desde o fim da sua actuação até pouco antes de voltar à “boca de cena” o elefante permanecia sempre atado a uma pequena estaca cravada no solo com uma corrente presa a uma das patas.

Porém, a estaca era não mais que um minúsculo pedaço de madeira e ainda por cima estava enterrada apenas alguns centímetros no solo. Ora, ainda que a corrente fosse grossa e forte, parecia-me óbvio que um animal capaz de arrancar qualquer árvore com a sua força poderia com grande facilidade ver-se livre da estaca e fugir.

O mistério continuava a parecer-me evidente.

Então o que o prende?

Por que não foge?

Aos cinco ou seis anos eu confiava obviamente na sabedoria dos adultos. Na altura interroguei um adulto próximo – um professor, o meu pai ou talvez um dos meus tios – sobre o mistério do elefante. A resposta que obtive foi que o elefante não fugia porque estava amestrado.

Fiz então a pergunta óbvia: “Se está amestrado, porque o amarram?”

Não me recordo se recebi alguma resposta coerente.

Com o tempo esqueci o mistério do elefante e da estaca.

Há uns anos descobri, por mero acaso, que alguém tinha sido suficientemente sábio para encontrar a resposta: o elefante do circo não fugia porque tinha estado atado a uma estaca parecida com aquela, desde muito pequeno.

Fechei os olhos e imaginei o elefante recém-nascido e indefeso amarrado à estaca. Estou segura que naquele momento o elefante bebé empurrou, puxou e suou a tentar libertar-se. E apesar dos seus esforços, não o conseguiu porque aquela estaca era demasiado forte para ele.

Imaginei que adormecia esgotado e que no dia seguinte voltava a tentar, e no outro e no outro… até que um dia, terrível para a sua história, acabou por aceitar a sua impotência e resignar-se ao seu destino.

Esse elefante enorme e poderoso que vemos no circo não foge porque, pobre dele, crê que não é capaz. Tem gravada a recordação da impotência que sentiu pouco depois de nascer.

E o pior é que jamais voltou a pôr em causa seriamente essa recordação.”

Trouxe-vos este conto, porque através dele podemos ver reflectido muito do que se passa connosco.

Quantas vezes utilizamos expressões “não consigo, não sou capaz, é impossível, não sei, não dá, não posso…” e quantas vezes estas expressões têm um verdadeiro fundamento de verdade? Em que nos baseamos quando dizemos que não conseguimos ou que não podemos? Estaremos também a agarrarmo-nos a uma estaca que vimos bem maior do que realmente é?

Pois bem, na nossa vida tudo podemos alcançar, se assim o que quisermos. A força com que o fazemos, quando não temos escolha, é disso prova.

Então porque esperamos que as circunstâncias nos obriguem a encontrarmos o nosso potencial? Porque não o pomos hoje mesmo em ação?

Quanto mais o fizermos mais e melhores serão os resultados e com isso maior a motivação para chegarmos ONDE realmente quisermos IR. Lancemo-nos à aventura de viver uma vida plena, onde os protagonistas que somos, sentimos ter a força para alcançar seja o que for.

A coragem? Essa já faz parte de nós, basta-nos resgatá-la.

Então, se olhar em volta, estará ONDE sempre quis IR.

Lúcia Sêncio

**Adaptado do livro “Deixa-me que te conte” de Jorge Bucay

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MATERNIDADE E PATERNIDADE NO SÉCULO XXI CRIANDO FILHOS SOLIDÁRIOS E PACÍFICOS (2)

Maternidade e Paternidade. Criando Filhos Solidários e Pacíficos

Portrait of a boy with the map of the world painted on his face.

“Criar filhos pacíficos e solidários num mundo violento? Crianças que gostem de cooperar e não só de competir? Não sobreviveriam, não saberiam se defender, não conseguiriam conquistar um lugar viável no mercado de trabalho!” Esse é o temor expresso por muitos que pensam que “preparar os filhos para a vida” quase equivale a prepará-los para a guerra.

No entanto, o desenvolvimento de uma criança que se tornará uma pessoa pacífica e solidária requer a consolidação de características múltiplas e complexas, muitas das quais estão incluídas nos conceitos de “inteligência emocional” e de “inteligência interpessoal”: olhar os conflitos como desafios para criar saídas e soluções razoáveis para todos os envolvidos; capacidade de empatia; pensamento sistêmico; facilidade de trabalhar com grupos e em equipe; capacidade de liderança e de tomar iniciativas; disposição para superar dificuldades e obstáculos. Ou seja, posturas ativas e dinâmicas que estão sendo cada vez mais valorizadas no mercado de trabalho. Longe de uma postura de submissão, conformismo ou pasmaceira.

Claro que nem todas as pessoas desenvolverão igualmente todas essas características, mas este é o conjunto que definiria a postura de uma paz ativa e participativa.
No cenário dos progressos tecnológicos que permitiram descobertas científicas importantes no campo dos primórdios da formação do ser humano, vale a pena destacar os recentes avanços da neurociência que mostram que o nosso cérebro e, por conseguinte, nossa personalidade, resulta da integração entre nossos genes e as experiências pelas quais passamos desde a vida intrauterina. Quando o olhar da mãe e o do bebê se encontram amorosamente, no corpo do bebê são liberados os hormônios ligados à socialização e à empatia, preparando seu cérebro para a capacidade de amar.

Acariciar o bebê reduz os hormônios do estresse que prejudicam o desenvolvimento cerebral. Como diz Kent Hoffman: “Com 11 milhões de sinapses por minuto surgindo no cérebro do bebê, pode-se dizer que os cuidadores estão estimulando galáxias de neuroconexões nas crianças pequenas.”

Por outro lado, se a criança sofrer violência e maus-tratos repetidamente, a arquitetura do cérebro sofrerá danos. Em síntese, vínculos seguros facilitam a formação de boa autoestima, resiliência e visão positiva do mundo; os vínculos pouco amorosos ou inseguros conduzem a problemas emocionais posteriores. Vínculo seguro significa amor com sensibilidade, aconchego, sintonia, reparar rupturas, negociar caminhos de vida atravessando adversidades e superando obstáculos. Amor, carinho, respeito: ingredientes necessários para criar crianças pacíficas, solidárias e resilientes, com competência social.

Portanto, no cenário das descobertas científicas sobre o desenvolvimento, destaca-se o conceito de competência do bebê e da criança pequena, de sua capacidade de formar vínculos desde muito cedo. O ser humano já nasce equipado para vincular-se: o desenvolvimento da empatia, as sementes da solidariedade e da expansão amorosa começam a germinar nos primeiros anos de vida. É preciso reconhecer a sabedoria das crianças, a competência das famílias e o poder dos pequenos gestos e ações do cotidiano como contribuições essenciais para a grande mudança da consciência coletiva da humanidade que, por força do que nos mostra o cenário desolador, tornou-se uma medida de sobrevivência da espécie.

A maternidade e a paternidade trazem a oportunidade de viver uma experiência de vida profundamente transformadora. Podemos crescer como seres humanos, na medida em que nossos filhos crescem, por meio das necessárias revisões do nosso modo de ser no mundo, de nosso estilo de vida, dos hábitos de consumo, do ritmo e da forma de trabalho e de lazer, dos valores de convívio, da espiritualidade e da busca de transcendência. Considerando que todos nós vivemos inseridos nos cenários desolador e esperançoso descritos acima, precisamos todos, independentemente de nossas profissões, atuar como ativistas sociais, ambientalistas e construtores da paz a partir do cotidiano das famílias, nutrindo amor e respeito, cooperação e responsabilidade pelo bem comum.

537229_537496029604529_1792234211_nCabe a cada família transformar todos esses conceitos abstratos em ações concretas no cotidiano, reconhecendo a grandeza contida em cada pequeno gesto e ação. Alguns exemplos: quando todos (meninos e meninas, homens e mulheres) da casa preparam o lanche de domingo e arrumam a mesa da refeição, estão tendo uma experiência de partilha e de cooperação; passear com os filhos em um parque, apreciando belezas naturais, colocando o lixo nos recipientes adequados, é uma maneira de valorizar a beleza do mundo e perceber a necessidade de preservar esse bem coletivo; usar eletricidade, água e combustível sem excessos, materiais de limpeza biodegradáveis, produtos com embalagens recicladas como meios de dar uma parcela de contribuição para o equilíbrio de recursos que são finitos; estimular os irmãos a se ajudarem nos trabalhos escolares, na aprendizagem de novas habilidades, na escuta atenta, transmite noções de empatia, solidariedade, cooperação; colocar perguntas estimuladoras – “como vocês podem resolver isso sem briga?” – contribui para a criatividade na busca de soluções para impasses e conflitos que inevitavelmente surgem no cotidiano do convívio. Enfim, o exercício da reflexão sobre a grandeza dos pequenos momentos poderá conduzir cada família a trabalhar em prol da construção de uma nova consciência global, a partir de uma infinidade de ações e gestos concretos.

Portanto, a missão da maternidade e da paternidade no século XXI é desenvolver o poder da responsabilidade. Significa olhar o cotidiano como caminho de transformação da consciência do ser humano, ampliando sua contribuição para reverter o cenário desolador, incrementando as tendências já existentes no cenário esperançoso para construir novos rumos e criar filhos solidários e pacíficos, que poderão ser melhores do que nós.

Maria Tereza Maldonado
Psicóloga e escritora
http://www.mtmaldonado.com.br
http://www.youtube.com/user/terezamaldonado
Twitter: @MTMMaldonado
http://www.facebook.com/mariaterezamtmaldonado

Tempo de Crisálida

94694-050-4EED5113É preciso deixar morrer. É preciso aprender a liberar o que já não é mais. Há partes de nós que resistem, apesar de obsoletas. Que certezas carregamos sem questionar? Onde estão nossas dificuldades de aceitação que não nos permitem sair do sofrimento?

Há um tempo para tudo na vida. Porém, é preciso deixar morrer a lagarta. A semente do que fomos, as ilusões nas quais construímos nossa visão de mundo, foram uma etapa necessária da existência, mas chega o momento da transformação. Aquilo que era bom não representa mais o futuro.

A segurança não pode ser medida pela convicção, mas pela habilidade de duvidar e mesmo assim ser capaz de seguir em frente. A lagarta é a promessa do que podemos nos tornar, contudo não é a experiência completa, nem um fim em si mesma. É uma etapa inicial, acertadamente percorrida. A infância da vida, o desabrochar da inocência, a experimentação da realidade.

Então há o momento de deixar a lagarta morrer. Este é o tempo da crisálida. Quando saímos das certezas aprendidas para as verdades elementais. Introjetamos a experiência e repassamos a vida pelo crivo caloroso da essência. Há uma alegria, um júbilo nesta vivência. Pois, não há nada melhor do que renascer. Nascer pode não ser uma escolha, mas renascer é fruto da consciência que acorda e deixa morrer aquilo que não vive mais.

Claro que, como qualquer das passagens da existência, tornar-se crisálida não é uma experiência isenta de tumulto. Há estertores da antiga lagarta que resiste em desaparecer, sem compreender que de fato se transforma em algo maior e melhor. A crisálida contém a lagarta, mas vai além dela, muito além.

Essa interiorização a que a crisálida convida é um estado reflexivo, de harmonização entre o ser e o fazer, entre o desejo e o destino. É a edificação da consciência em estado de maturidade. É, ao mesmo tempo, um estado de insensatez, de loucura, de fazer coisas inesperadas, fora do senso comum. É preciso muita maturidade para enlouquecer de forma sensata.

Loucura mesmo é permanecer lagarta. Arrastar-se por aí, sem perceber a magnificência da vida. Acordar e dormir sem perceber que o tempo entre estes dois momentos é o mais significativo. Não será em nenhum outro dia, nenhum outro momento e nenhum outro lugar. Especialmente, não precisamos ser outra pessoa para nos transformarmos. O ser que somos já basta. É preciso lembrar que a lagarta é semente e que a experiência acumulada é a matéria prima onde podemos construir o casulo que vai abrigar a crisálida.

É tempo de se voltar para o interior, para a essência. Um momento de recolhimento das distrações do mundo. O sabático do cotidiano. Esse necessário afastamento das obrigações, deveres e diversões mundanas é ao mesmo tempo uma grande reflexão, como um período de profunda meditação, e um júbilo, uma alegria infinita de encontrar-se, finalmente, consigo mesmo.
Aparentemente, aos olhos puramente focados no exterior, a crisálida é um casulo de morte. É o fim da lagarta e nada mais se vê. Não há beleza, nem movimento, nenhum tipo de ação. É o fim de um ciclo, mas não se pode adivinhar o que virá daí. É preciso aprender a confiar no fluxo, acreditar no sábio processo da natureza, que fará revelar aquilo que pode ser.

Muitos observadores desavisados vão condenar a crisálida. Vão apontar suas deficiências, suas perdas, suas dificuldades, sua fragilidade. Contudo, não se pode confiar na impressão das outras lagartas. Cada uma delas também haverá de experimentar o mesmo processo, cada uma a seu modo, porém lagartas não estão prontas para compreender a crisálida.

O que é uma aparente deficiência pode ser, de fato, um redimensionamento da experiência de existir. O que é percebido como perda, pode na verdade ser um desapego libertador. As dificuldades nada mais são do que a consciência em pleno exercício, percebendo mais e, portanto, experimentando coisas e situações novas. E do falsamente frágil é que surge a força, o vigor, a vida.

Por falta de experimentação, o vocabulário das lagartas condena a experiência de crisálida. A resistência se organiza, a crítica se intensifica, mas o processo não pode mais ser interrompido. Uma vez que a lagarta comece a se transformar já não há mais volta. E é desse recolhimento, dessa auto imolação do passado que surgirão as condições para o desabrochar de uma nova experiência, mais ampla, mais rica, além de qualquer aspiração.

Da antiga lagarta se tem a experiência do corpo. Dos desafios vividos nascem as antenas da percepção. Da entrega surge o veludo e as cores. O ser se apresenta além das restrições e, de par em par, desdobra suas asas e se permite voar.

Dulce Magalhães
Ph.D. em filosofia pela Columbia University
www.dulcemagalhaes.com.br