Memórias de Cabo Verde

puzzle-piecesQuando em Outubro de 1989 com Nuno Neuparth chegámos Cidade da Praia para duas conferências estávamos longe de sonhar que seria o inicio de um projecto de cooperação que duraria 18 anos. O impacto dessa primeira viagem foi de tal forma que nos fez apostar em planos concretos de colaboração para o futuro. A relação estabelecida foi instantânea e quando no primeiro dia de estadia montámos o primeiro nebulizador a ser utilizado em Cabo Verde para tratamento de doentes respiratórios que se encontrava no gabinete do Director do Hospital Agostinho Neto, sentimos que a cooperação estava a começar. No entanto, o episódio que definitivamente nos marcou foi a deslocação para o Mindelo. Com a hospitalidade que caracteriza o cabo verdiano, o condutor do Hospital ofereceu-se para às 6 da manhã fazer o nosso “check-in” no aeroporto para nos permitir tomar o pequeno almoço no hotel. Seguiu-se a espera até quase à hora da partida sem noticias…tinha-se avariado o automóvel e a custo chegou junto de nós, a pé, com os bilhetes e com o “check-in” feito.

Quando chegamos ao aeroporto o avião estava a levantar e apesar da nossa “invasão pacifica” da pista já não foi possível impedir o voo. Rapidamente, até porque as malas tinham seguido, foi decidido pelos responsáveis do aeroporto que o pequeno Cessna que seguia para a Boavista, nos fosse levar ao aeroporto da Ilha de S. Vicente a fim de chegarmos a tempo para a conferência prevista às 11 horas no Hospital Dr. Baptista de Sousa. Assim aconteceu. Quando chegámos inesperadamente ao aeroporto da Ilha de S. Vicente, este estava fechado (como tudo mudou!), mas as duas malas estavam à porta à nossa espera.

Estes “sinais” fizeram-nos ficar “agarrados” a esta nova realidade durante 18 anos e 25 missões oficiais de cooperação com o patrocínio dos Ministérios da Saúde dos dois países. Os pilares da cooperação foram cumpridos: a) assistencial – cerca de 4.000 doentes ficaram registados nos hospitais da Praia e Mindelo e na Delegacia de Saúde da Ilha do Sal e mais de 1.000 kg de medicamentos e de material médico transportados pela mala diplomática; b) formação – todas as delegacias de saúde e hospitais ficaram com nebulizadores, medicamentos essenciais, e planos terapêuticos para dar resposta aos doentes respiratórios.

Duas especialistas foram formadas para liderar as consultas nos hospitais da Praia e do Mindelo. Uma delas foi a primeira Alergologista após exame feito em Cabo Verde. Cerca de 50 actividades de formação envolvendo médicos, enfermeiros, psicólogos e técnicos de cardiopneumografia foram concretizadas; c) investigação – estudos epidemiológicos com publicações internacionais e o envolvimento directo da OMS foram continuadamente desenvolvidos.

Quando em 2007, em cerimónia publica no Ministério da Saúde de Cabo Verde, foi encerrado oficialmente este projecto de cooperação, eu e o Nuno em representação de muitos de nós, relembrámos com saudade o que foi uma grande aposta. Provavelmente não voltaremos a ver os olhos brilhantes das crianças das escolas de Cabo Verde, os nossos doentes, a afabilidade dos nossos colegas, ou o pôr-do-sol no “Plateau” da cidade da Praia, as noites de fim de semana na Praça Central do Mindelo ou as praias da Ilha do Sal. Fica a satisfação de um projecto conseguido e uma mensagem para a vida.

J. Rosado Pinto
Coordenador das Missões de Cooperação em Alergologia Portugal-Cabo Verde (1990-2007)

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A ARTE MÉDICA DE SHERLOCK HOLMES

Percent sign in magnifying glass --- Image by © Matthias Kulka/zefa/Corbis

 O criador do detetive Sherlock Holmes, como todas sabem, foi o médico inglês Dr. Arthur Conan Doyle (1859-1930). Seu amigo, assistente e biógrafo, foi o Dr. John Hamish Watson, personagem de ficção o qual fez o mundo conhecer as façanhas do arguto personagem, descritas com um estilo intrigante pelo famoso detetive que provou ser extremamente talentoso nas artes da literatura. Por ser médico, Conan Doyle, empregava rigorosamente o método da semiologia médica, para desvendar obscuros casos de assassinatos. A partir de sinais e sintomas, adicionados de perspicazes observações e paixão pela justiça, chegava sempre ao autor do crime. Munido apenas com uma lupa, ao detetar um fio de cabelo no espaldar de uma poltrona, cinzas de charutos no tapete, uma palavra ou expressão facial do investigado, era tudo o que Conan Doyle necessitava para chegar às suas brilhantes e acertadas conclusões. E sem o coice na porta, a invasão de domicílio e a tortura.

O aspeto pouco observado nos contos de Doyle é a fina ironia que ele exerce ao ter como assistente de investigações, exatamente o Dr. Watson, um médico que nunca entendia o semiótico raciocínio investigativo de seu chefe. Pronunciada desdenhosamente, a conhecida frase “elementar, meu caro Watson“ talvez fosse endereçada a certos médicos de sua época que elaboravam diagnósticos equivocados e  prescreviam terapêuticas inúteis.

Discute-se, atualmente, se para se detetarem doenças na prática médica diária são indispensáveis e fundamentais as sofisticadas tecnologias de múltiplos exames laboratoriais acrescidos de refinadas imagens radiológicas, ecográficas, tomográficas, cintigráficas, de ressonâncias magnéticas e outras. Sob o ponto de vista do médico, todas são esclarecedoras e confortáveis, pois nos poucos minutos que sobram para o paciente o diagnóstico quase sempre é feito. Mas para o lado das inseguras e atemorizadas pessoas que procuram algo, além da bateria de exames, tal como tempo para falar, expressar suas angústias, contar sua vida e  perceber que têm a sua disposição ouvidos e olhares atentos e amorosos, os exames não são suficientes. E a queixa frequente é  que “o doutor nem me olhou, só examinou os exames”. Então, se a tecnologia diagnóstica é colocada prioritariamente como uma parede entre o médico e quem o procura por se julgar doente, de forma a  interromper o indispensável relacionamento médico-paciente humano, este sim fundamental no exercício da arte médica, é urgente que se reformule todo o procedimento da cura de doenças e da manutenção da saúde, principalmente, das populações pobres do país.

Para Conan Doyle apenas uma lupa e sua paixão pela justiça, eram suficientes para desvendar um crime. Para o médico, um exame clínico, o afeto e o respeito ao paciente no exercício da arte médica, são condições pontuais e necessárias para se cumprir o que Maimônides há mais de mil anos ensinou:

Ao paciente deve-se dedicar uma hora: quinze minutos para examinar-lhe o corpo e quarenta e cinco minutos para sondar-lhe a alma “.

Franklin Cunha
Médico
Membro da Academia Rio-Grandense de Letras