A Estratégia das Feministas é Equivocada?

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Uma escultura em osso de vinte mil anos encontrada nos Pirineus mostra uma mulher transpassada por uma lança arrastando-se de gatinhas, enquanto um homem agachado lascivamente atrás dela tem o claro objetivo de uma penetração sexual, embora o volume dos seios e do ventre indiquem que ela está grávida. Em uma característica definição da idéia que o homem primitivo teria dos jogos sexuais, o antropólogo francês G.H. Luquet interpreta tal repelente representação como um “amuleto de amor”.

O cerne das lutas feministas atuais coloca em questão todo o imaginário masculino através dos tempos, o qual não considerava as mulheres como seres humanos. Essa idéia ao longo dos séculos pouco se modificou. No concílio de Macon (França, ano 585), por exemplo, o tema discutido durante um mês por centenas de cardeais foi a mulher, como e onde classificá-la, já que, segundo os príncipes da Igreja, ela não faria parte da espécie. E hoje, como conseqüência desse imaginário, a repelente cena primitiva de ataque e posse sexual se repete – real e simbolicamente – em todos os estratos sociais. E com muita freqüência, pouca divulgação e rara punição. No entanto, se a visão das bravas feministas continuar sendo filtrada apenas através da ótica sexual, a luta será limitada e os resultados frustrantes.

Quando Marx disse que “a liberdade da mulher passa pela liberdade do homem”, pensou em conquistas bem mais amplas do que o exercício livre e recreativo da sexualidade. A reivindicação de igualdade entre homens e mulheres no plano dos direitos coincide historicamente com o início das lutas pela igualdade dos homens entre si. As conquistas masculinas, no entanto, foram bem mais amplas e rápidas do que as femininas. Provavelmente devido à errônea estratégia adotada pelas mulheres.

Na verdade, a opressão androcrática não imperava em todos os povos primitivos, mas acabou se impondo pela violência e derrotando as sociedades matriarcais. Hoje – lição apreendida – sabemos que a opressão da mulher não se resolve tentando derrotar o homem. A tática das alternativas (derrota/vitória) na luta entre os sexos é uma arma de domínio masculino. E é essa tática que a mulher deve recusar. Suas escolhas não podem se direcionar para uma participação no poder masculino, mas no questionamento do conceito global do poder, na forma como ele está atualmente instituído e legalmente sacramentado.

A igualdade hoje oferecida à mulher, adereçada como um princípio de justiça, é armadilha apetitosa, porém letal. O princípio justo é o que respeita as peculiaridades e as diferenças dos seres humanos. Além das de natureza biológica – vitais para a espécie e onde a mulher tem árdua e inevitável participação – a mais importante é a milenar exclusão feminina da história. Os objetivos dos homens foram impostos por meio de uma truculenta coerção, sendo que todo o edifício social foi construído com rígidos módulos nitidamente másculos. Dentro dele é onde se permite a movimentação da mulher. Ao pássaro cativo e decorativo abriram-se algumas janelas, mas ele continua engaiolado.

A estrutura legal, a organização laboral, científica, artística, o psiquismo coletivo, a religião, a linguagem, enfim toda a cultura, está elaborada e ajustada de acordo com as prerrogativas dos homens. Nessa perspectiva a maioria dos discursos sobre a igualdade entre os sexos é apenas retórica dissimuladora da subjugação feminina.

Ao tentar se elaborar uma solução para o futuro, implica em nosso conhecimento do passado. O surgimento da propriedade privada originou um desequilíbrio entre os sexos com demarcação de espaços: o doméstico para a mulher e o público para o homem. No entanto, interpretar somente em bases econômicas nosso destino histórico deixa sem explicação um fenômeno do qual se ignora o impulso motor primordial.

Nem o materialismo histórico, nem a psicanálise, nem o estruturalismo (ou outros ismos) indicam claramente o mecanismo emocional determinante da passagem da propriedade comunal à propriedade privada. É fato consensual (e lamentável) ser a satisfação dos instintos a conduta orientadora do ser humano no contato com o outro sexo. A chave da questão parece estar no arquétipo do instinto de posse, no primeiro objeto concebido como seu pelo homem: o objeto sexual.

A estratégia feminina, portanto, deverá – a nosso ver e pensar – se empenhar em remover do inconsciente masculino a sua primeira presa, na tentativa de extirpar o núcleo primitivo dessa ancestral patologia possessiva, complexa mistura de eros e tânatos

Talvez nessa tarefa devam ajudá-las menos os antropólogos, sociólogos ou psicólogos e mais intensamente os etólogos.

Franklin Cunha
Médico

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Mulher Sempre!

gaia2És deusa-mãe, sentada, pacífica e desarmada, simbolizando a fertilidade.
Aprendeste a esculpir, na única exceção à primeira lei do Universo, juntando uma imensidade de partículas que andavam dispersas. Ensinaste-as a conviver, quando à estátua esculpida deste o sopro da vida.

Na maternidade, no primeiro alimento foste mãe.
Nos primeiros sorrisos, nas risadas das primeiras conquistas, foste avó, tia, amiga; nas brincadeiras foste cúmplice; na formação, mestra.
Na adolescência foste sonho sensual e acordar molhado; na delicadeza da pele, eras fofinha; na riqueza da circulação sanguínea, quentinha; no respirar, ofegante; nos perfumes de enfeite, eras cheirosa; no vestir, sensual.

Na vida companheira, amiga e amante; parceira, tolerante ativa, acionista e gerente. Sempre anjo-da-guarda! E os anjos começam as suas mensagens com “não tenham medo”! És, pois, a melhor e mais segura companheira de viagem para o futuro. Contigo a eternidade está garantida.

No princípio a sociedade elegeu-te deusa da fertilidade. Não se associava, então, o coito à fecundação e por isso foste venerada pela magia da criação do novo ser. Ao homem competiam as intervenções na esfera pública – colhe alimentos, caçar e guerrear. A figura tutelar do pai, no ensino e adestramento destas competências, era representada por um tio materno, teu irmão. A ti, cabia velar pelo ambiente doméstico – local de processamento de alimentos, confeção de roupas, creche, escola, hospital e abrigo de velhos. Cuidavas ainda das culturas próximas e dos animais domésticos. De novo a simbólica vocação, uma espécie de ministério, para os assuntos da fertilidade. Era uma idade de sociedades matriarcais, diz-se que detentoras de cultura, alegria e brilho, como nenhuma outra das patriarcais que lhe sucederam.

Mas estas, de domínio masculino, chegaram e predominam ainda hoje. Esqueceu-se a mensagem do anjo e predominou o medo. É longo o rol de perseguições, violências, agressões e eliminações físicas, motivadas pelo temor do poder simbólico feminino.
Na sociedade pré-industrial, a esfera emotiva dominava. Não se conhecendo a origem do raio, a culpa era atribuída a Júpiter; não se sabendo tratar uma doença, preparavam-se poções contra o mau-olhado; contra o medo do futuro, inventavam-se bruxas que eram queimadas na fogueira.

Hoje, conquistado o que é racional, criou-se entre as diversas áreas de intervenção social, uma espécie de sociedade homossexual, cúmplice na defesa tenaz dos redutos masculinos, onde o poder é exercido.

Só que a mudança na organização da produção obrigou-te, a ti mulher, a abandonares a exclusividade da atividade doméstica, para proveres ajuda ao sustento da família.
Trabalhas fora de casa e mostras as tuas competências; acabas com dogmas de menoridade; Vais à escola, aprendes, competes e és agente de mudança; e lutas. Mas tal como no princípio, continuas a deter a ter cargo quase exclusivo, os instrumentos mais valiosos da construção do futuro – maternidade, provimento, acompanhamento e formação. É o princípio do fim da imagem do patriarcado poderoso que dita a lei.

A sociedade pós-industrial, mais emotiva, mais fantasista e mais criativa, parece capaz de gerar um tempo mais andrógino. Delegámos as tarefas cansativas e repetitivas às máquinas, deixando aos humanos as atividades flexíveis, intuitivas e estéticas. Atividades para que tu, mulher, estás mais bem preparada, pelo simples facto que os homens foram tradicionalmente educados e treinados para agir de forma racional, rígida e programada.

Uma menção é devida a autores que me legaram lúcidos ensinamentos. Do amigo Franklin Cunha a Domenico de Masi e, evocando Mário Rigatto, com quem espero ainda um dia me encontrar, lá pela eternidade, para onde ele voou, inesperadamente, com a sua “borboleta”. Não por acaso, todos homens, unidos no elogio da Mulher. Sonhar será possível?

Se queremos vencer, sem vencidos, este caminhar para o futuro, então vamos construir uma nova era de convivência de partilha e de parceria solidária entre mulheres e homens, na gigantesca tarefa de viver e continuar a espécie humana. Sonhar é preciso.

Editorial da Revista Humanidades
2001 – JUL/SET


Aceitei que se publicasse, agora, mais de doze anos depois, o editorial da Revista HUMANIDADES dedicada ao tema MULHER.

Interessante é o exercício reflexivo de revisitarmos o nosso pensamento a tal distância e sermos confrontados com o que se mantém inalterável e com o mudaríamos, caso fosse possível. Infelizmente, quase tão só os prognósticos futuristas de otimismo que então expressámos e não se concretizaram.

Temos de investir mais no sonho!
Mas aceitei, volto ao princípio, a publicação deste editorial velhinho, para poder homenagear e recordar dois grandes amigos – meus e da Associação HUMANIDADES – que recentemente nos deixaram: Albino Aroso e Paulo Canella.

Eles foram afinal, já não entre nós e talvez por isso mesmo, os principais responsáveis pela recriação da Revista HUMANIDADES – Cultura e Cidadania.

Unidos também por vidas profissionais e de intervenções sociais dedicadas à Mulher.
Merecem bem, o lugar que ocupam na galeria dos que ousaram sonhar!

José Luís Gil