Nas Dobras do Tempo

133976_Papel-de-Parede-Fuga-do-tempo_1280x800Pois é, dizem os matemáticos que segundo as suas equações, existe a possibilidade de encontrarmos uma dobra do espaço-tempo e, se conseguirmos penetrar por ela, então, poderemos navegar pelo futuro ou pelo passado afora. Ri-me deles: os poetas de há muito que conhecem-nas e nós, os simples mortais, conhecemo-las também quando ousamos sonhar.

Após um dia de trabalho com os meus alunos, cheguei em casa um tanto cansado, estendi a rede que me espera ansiosa no alpendre e vislumbrei uma dessas dobras ao pé da pitangueira que plantei outrora, para que as minhas crianças pudessem saborear o gosto de viver na aldeia, embora tenham nascido entre outros quase 20 milhões de aldeões dessa desvairada São Paulo. Hoje, ela (a pitangueira) atende melhor aos pássaros que aos meus filhos e netos.

Mas, voltemos à dobra… curioso, como a Alice que também encontrara uma enquanto perseguia o apressado coelho, espiei prudentemente e, pasmem, sentado e com o chapéu e os óculos inconfundíveis, vi Fernando Pessoa, distraído a escrever. Por sobre seu ombro pude ler o que escrevia enquanto Ricardo Reis: “Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio…”
Lídia era então toda a humanidade. Vamos, pois, pelo menos em obediência ao poeta, enlaçar as mãos e ver que a vida passa como passam as águas de um rio e esperar com ele que o Menino desça outra vez, através de um raio de sol e venha morar connosco em nossa aldeia.

Já ao longe, usando a intemporalidade da dobra, vi Pitágoras. Notei que o velho filosofo fica corado toda a vez que lhe falam sobre o teorema que carrega o seu nome. Não fosse ele um sábio, ter-se-ia indignado por lhe atribuírem um teorema que os babilónios já conheciam cerca de quatro séculos antes dele.

“Gostaria de ser conhecido porque ensinei aos que não sabiam e amei fazê-lo. Tal como Aquele que viria passados quase quinhentos anos, ensinei a eucaristia do pão do saber. Procurei nos números e na música a harmonia que há em todo o Universo”.

Todo não, pelo que vejo ainda falta aos homens.
Era chegada a hora de voltar. Pude, ainda que de soslaio, ver Eça de Queiroz que falava aos homens da placidez das serras em contraposição à turbulência das cidades.

Alguém contara aos sábios a estupidez que nós fazemos com as crianças e com os velhos, com o Kosovo e com Timor, com os palestinos e com os judeus. Ficaram atónitos ao saber como ainda se ofende a dignidade humana com ambição e beligerância. Ficaram, porém, muito alegres e surpresos ao saber que nutre tanta loucura e desamor, existe ainda a possibilidade de espaços como este onde podemos falar de Amor, Paz e Solidariedade.

Luiz Barco
Professor Universitário
(texto escrito em 2000)

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Bolero de Ravel

bolero-2 Os pequenos dedinhos de Lara deslizavam ao piano. Em sua infância, passava horas de dedicação à música. O reconhecimento pela habilidade de qualquer pessoa aos desafios da musicalidade sempre a contagiou e permaneceu em seus valores de forma significativa na sua fase de menina madura.

Certo dia caminhando pela rua, ouviu o som suave de flauta doce, que a atraiu para ver de perto quem produzia algo tão encantador. Lara observou ser um jovem de semblante triste que em suaves notas tocava “Bolero de Ravel”. Ele parecia ter percebido sua sensibilidade e logo desviou o olhar, denotando barreiras para qualquer aproximação.

“Belíssimo…mas um talento desses ao chão? Com esta capacidade musical, o que pode ter acontecido com ele?” – pensou Lara.

Muito tempo se passou. Os traços e rugas de expressão se instalaram na face de Lara, que permanecia contagiada para assistir concertos musicais, como prioridade aos momentos de lazer. Bolero de Ravel sempre lembrava aquele jovem.

Naquela viagem do transatlântico, o navio desbravava o mar. Lara com seu vestido longo, olhava as espumas brancas das águas em encontro a proa da noite iluminada pela lua grandiosa. Lentamente o som das suaves flautas em “Bolero de Ravel” na regência de um famoso maestro e a música penetrou em sua alma. A grandiosidade daquele sentimento deixou Lara entusiasmada em conversar com ele e surgiu uma oportunidade no restaurante do navio.

Ambos se emocionaram, por Lara descobrir que aquele talento ao chão era o mesmo que brilhava atualmente nos palcos mais importantes das orquestras mundiais. O músico por saber que os aplausos, mesmo velados daquela época, faziam parte de sua história.

O que houve com ele? É o que menos importa. Mas o talento e a superação foram mais intensos e falaram mais alto. Bolero de Ravel, uma história para se comover!

A VIDA É CHEIA DE DESAFIOS E ESTAMOS AQUI PARA SUPERÁ-LOS !

Beatriz Campos
Psicóloga – Escritora – Consultora em Gestão e Palestrante – Autora dos Livros “Coaching Com Jovens Talentos” e “Mundo Azul”. Diretora do Instituto Gestão Jovem e Consultora Associada do Instituto de Gestão de Pessoas – IGP. Membro da Academia de Letras de Balneário Camboriú e Academia de Letras do Brasil – Seccional Suíça.