Éramos Quatro!

nao-tenha-medo-da-velhiceEstou decididamente um velho emotivo. Não se preocupem um dia vocês vão, também, envelhecer. Descobrirão que no lugar do coração os velhos possuem uma pilha de mantas: A mais externa é pura aritmética, porém, diferentemente só registra as perdas, pois, já então, somos apenas três!. Logo abaixo aparece uma trama de vários fios conhecidos por saudades. Por favor, cuidado ao manipulá-los, alguns, poucos é verdade, nos conduzem às alegrias, outros, entretanto, terminam em tristes lembranças.

Ainda a pouco, ao ler seus votos de uma Feliz Páscoa, vi um fio branco como a neve, encaracolado como os que cobrem carneiros, e já não estava claro para mim o rosto que essa manta cobria.

Seria de um velho médico brincalhão que , aos poucos, envenenava-se com uns cigarrinhos de fumo, a enrolar a vida com palha de milho?

Não sei! Apenas sinto que a vida é uma dádiva que na juventude não somos aptos a perceber. Na idade adulta começamos a cuidar melhor desse presente da natureza, e, ao envelhecer descobrimos, atônitos, que a aritmética que nos ensinaram está correta, mas começa no infinito, passa pelos trilhões,…, milhares, …, …4,3,2,1 e o zero.

Assim, desejo a todos nós várias páscoas, boas preferencialmente, e que o Zero nos seja suave.

Um abraço do,

Luiz Barco
Na semana em que chegou ao Zero
a vida do grande autor dos
“Cem Anos de Solidão”

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Pequeno Artigo sobre o Dr. Albino Aroso

red roseTer tido a oportunidade de conhecer o Dr. Albino Aroso e de com ele privar ao longo dos anos constituiu um fator privilegiado de ensinamentos e de enriquecimento pessoal.

Devo-lhe isso, a par com uma dívida coletiva que partilho com todas as Mulheres Portuguesas.

Albino Aroso foi um médico competente, conhecedor dos factos científicos e das necessidades reais das pessoas, infinitamente dedicado e nunca satisfeito.

Cultivou sempre a atualização aos tempos por que foi vivendo e era dotado de uma surpreendente juventude de espírito e de conceções.

Era um militante das causas que defendia. Foi particularmente conhecido pelo que fez em relação ao planeamento da família, mas os seus interesses na promoção da saúde iam bem mais longe.

Negou cedo os confortos associados a uma prática bem sucedida da medicina. Partiu para a divulgação dos benefícios dos conhecimentos modernos e do controlo das suas vidas pelas mulheres.

Sabia falar-nos como muito poucas pessoas. Sabia convencer, e conquistar, como raros. Não tolerava a ignorância e a complacência com preconceitos e politiquices.

Compreendi-o um pouco melhor quando vi, no momento da sua morte, a homenagem anónima de muitas mulheres.

Maria Leonor Beleza
Presidente da Fundação Champalimaud

Memória de Albino Aroso

albino arosoAlbino Aroso é e perdurará como uma personalidade, incontornavelmente, ligada à saúde do século XX.

Assim mesmo, sem qualquer acrescento ou adorno, mas…
Saúde em conceito mais amplo que o confinado à abordagem da doença. O bem-estar pessoal e social do humano no seu todo, enquanto cidadão.
Saúde da Mulher, sobretudo, com espirito pioneiro e até contra a corrente, ao tempo, em Portugal. Tocando, também, a saúde dos filhos, foi o responsável primeiro, pela mais espantosa queda do indicador de referência da saúde dos portugueses que é a taxa de mortalidade infantil. A Saúde da Mulher e da Criança.

Subscrevemos, pois, a ideia que foi a personalidade médica que mais influenciou, positivamente, o nível de saúde e bem-estar dos portugueses.
Ideia que foi já corroborada, pela atribuição de um galardão internacional que o coloca entre a escassa dezena de médicos que a nível mundial foram mais consistentes na sua ação, em prol da saúde das suas comunidades.
Passou à escala global, portanto, ultrapassando fronteiras, mas acima de tudo, as mentalidades que na época as condicionavam.

Mas aqui, na Associação Humanidades, queremos mantê-lo no meio de nós, como sempre esteve, à nossa escala e dimensão, evocando e preservando a memória do Homem, assim, como associado fundador e honorário, nosso primeiro Presidente da Mesa da Assembleia-Geral.

E não cairá no nosso esquecimento, o fantástico acompanhamento e intervenção que manteve no tempo da constituição e do arranque da Associação Humanidades.
Como não cairá no nosso esquecimento os contactos que nos proporcionou e que permitiram, com o aval do seu prestigiado nome, os primeiros recursos financeiros, então indispensáveis aos caminhos que iniciámos a trilhar.
Como não poderá cair no nosso esquecimento o modo afável, fraterno, disponível e entusiástico com que foi acompanhando os nossos percursos, sempre disponível para apoiar, mesmo após a idade avançada o ter afastado mais de nós fisicamente.

As instituições que não têm memórias, dificilmente, têm presente e não terão futuro.
A Associação Humanidades terá futuro.
Albino Aroso faz e fará parte desse futuro, pelas memórias que nos deixa.
Estará connosco, inspirando-nos, continuamente, nessa arte que tão bem exercia de apoiar o outro.

Sobretudo quando o outro é conjugado no Feminino.

José Luis Gil
Presidente Conselho Adminstração
Associação Humanidades