LEONOR BELEZA – Entre a luz de Lisboa e o brilho da Ciência

Leonor_BelezaOuvir Leonor Beleza a falar da Fundação D. Anna de Sommer Champalimaud e Dr. Carlos Montez Champalimaud é um tão grande privilégio que bem merecia que o ouvinte fosse um Jornalista credenciado. Mas a HUMANIDADES e o seu Presidente, o Dr. José Luís Gil, escolheram-me e eu lá fui, travestido de jornalista sem carteira profissional, ouvir a 05 Daniel SerraoPresidente desta Fundação; que é uma das que o poder político decidiu não extinguir – se é que extinguiu alguma; e parece que há largas centenas de Fundações que o não são, de facto, mas apenas usam esta figura jurídica, nem sempre pelos melhores motivos.

Fui recebido com fidalga gentileza e Leonor Beleza fez questão de, antes da entrevista, me mostrar, ao vivo, o que é o Centro cujo nome em inglês é “Centre for Unknown”. Ou seja Centro para procurar o que ainda se não conhece.

Foi uma deambulação fascinante.

Assisti à inauguração em 5 de Outubro de 2010 e recordo ter escrito estas frases:

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“O momento de abrir os painéis e aparecer o Tejo foi sublime.

E quando, ao pronunciar o seu discurso o vento lhe agitava o cabelo, com as águas do Tejo em fundo, pareceu-me estar a ver a representação da deusa Iemanjá que acalentou o sonho dos escravos negros de que o mar, um dia, os levaria de volta para as suas terras africanas.

Como deusa dos tempos modernos, vai acalentar outros sonhos: vencer o desconhecido na metastização neoplástica e descobrir como é que este meu cérebro está ditar-me estas palavras para com elas representar as ideias que a visão da cerimónia magnífica fez nascer em mim”.

Mas nesse dia o Centro era ainda um embrião que começava a desenvolver-se num “útero” muito favorável e, portanto, sem risco de abortar.

Agora, bem nascido, a Mãe mostrava-o já crescido e, como todas as Mães, muito orgulhosa por o sentir já um adulto forte e audacioso.

Ver os Laboratórios de investigação com o mais moderno equipamento, sobre o qual se debruçavam investigadores jovens, e as áreas de diagnóstico por imagem da doença oncológica com os mais avançados equipamentos, de um belo design e uma eficácia rigorosa, foi ter a certeza de estar na linha da frente do combate ao cancro; e assistir aos tratamentos de quimioterapia num espaço amplo, moderno, que perece o foyer de um Teatro de Ópera, onde os espectadores, no intervalo, conversavam do sucesso da prima dona, revelou-me o autêntico sentido da humanização do atendimento de pessoas doentes que, antes de doentes, são pessoas, com as suas diversas biografias.

DSC_2431_WEB_1Mater et magistra, Leonor Beleza conhece todos os seus investigadores, oriundos de Países, cujas Bandeiras figuram no átrio do majestoso edifício desenhado por um Arquiteto com genes portugueses; Charles Correa, de ascendência goesa, soube interpretar de forma magnífica o desejo (ou o sonho?) de Leonor Beleza que era o de ter um edifício voltado para o Tejo. Porque era daqui que os Portugueses partiam à descoberta do que não se conhecia, “por mares nunca dantes navegados”, e agora partiriam os seus investigadores por outros mares desconhecidos como os da Oncologia e da Neurobiologia. E também da visão.

A luz – a maravilhosa luz de Lisboa, que as águas do Tejo refletem e irisam, e que é, para Damásio, a poderosa metáfora da consciência cognitiva – inunda todo o edifício e será o grande estímulo para os cérebros criativos que Leonor Beleza acolhe no Centro para o desconhecido.

Terminei a longa visita a todo o Centro com o sentimento de ter viajado por um universo quase galáctico “onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro “ (Álvaro de Campos). E com este sentimento comecei a entrevista.

Daniel Serrão – sabe, Dr.ª Leonor Beleza, o que se passou na cabeça de António Champalimaud para gizar esta Fundação, da forma como o fez no seu testamento, no qual afetou à futura Fundação a chamada “cota disponível” da sua fortuna pessoal?

Leonor Beleza – sinceramente não sei e ninguém o saberá. Quis seguramente honrar a memória de seus pais e por isso o nome da Fundação é D. Anna Sommer e Dr. Carlos Montez Champalimaud. E quis também que a Fundação se dedicasse à investigação médica, impulsionando o progresso científico.

JARDIM ANNA SOMMERD.S. – é sabido que o Dr. Proença de Carvalho, grande Advogado e íntimo conselheiro de António Champalimaud, terá tido conhecimento que o testamento iria indicar a Presidente da Fundação que seria a Dr.ª Leonor Beleza, certo?

L.B. – certo. Mas eu não fiz sozinha todo o trabalho de conceber a Fundação, fixando os seus objetivos principais e a materialização física do Centro neste edifício em que estamos. Tive o apoio de João Silveira Botelho e António Borges, depois António Horta Osório, na Administração e de um Conselho de Curadores internacional do mais alto nível científico. A Fundação foi perspetivada para se abrir a todo o mundo científico, sem escolhas limitativas de nacionalidades dos investigadores. O local de trabalho está situado, como espaço físico, em Lisboa mas o espaço criativo dos investigadores é a Ciência, que não tem fronteiras nem nacionalidade.

D.S. – mas como se inspirou para chegar a este resultado excecional que é o Centro?

L.B. – vou-lhe responder com todo o rigor. Fiz uma reflexão profunda para tentar descobrir como Champalimaud, com as suas características pessoais e o seu sucesso como criador de grandes empresas, mesmo em situações desfavoráveis externas, faria se tivesse decidido pôr em marcha uma Fundação. E concluí que ele exigiria que tivesse objetivos muito concretos e definidos, que fosse eficiente e eficaz e que apresentasse uma muito boa relação entre custos e resultados. Nada de ostentações ocas, de despesas sumptuárias, de escolhas condicionadas por motivos menores ou paroquiais; inteiramente transparente perante todos.

CENTROCHAMPALIMOU10022012130Por isto a seleção de investigadores é um processo aberto ao mundo científico e todos os que entram, passam por uma avaliação independente e multo rigorosa. Em consequência deste rigor, o Centre Champalimaud for the Unknown foi recentemente considerado como o melhor local de trabalho para os jovens investigadores. Temos neste momento 160 investigadores, de 30 nacionalidades diferentes no Programa de Neurociências; não inclui médicos que são 55. O Diretor, Prof. Zvi Fucks é um investigador oncológico, reconhecido em todo o Mundo, formado pela Hadassad Medical School, de Israel.

D.S. – e o Prémio Champalimaud, que julgo ser de um milhão de euros, como aparece?

L.B. – nada teve a ver com as dificuldades visuais que afligiram António Champalimaud no final da sua vida. Pensei que havendo tanta cegueira evitável e curável no Mundo, Champalimaud ficaria feliz por a sua Fundação dedicar uma parte importante do seu dinheiro a este campo da Ciência Médica. Assim, além de fomentar a investigação interna em Oftalmologia decidi criar este Prémio que tem sido atribuído anualmente, por um Júri Internacional, a instituições dedicadas ao tratamento da cegueira ou à sua prevenção. O primeiro foi para a Aravind Eye Care System, na Índia, e os seguintes têm contemplado instituições noutras partes do Mundo com resultados concretos reconhecidos pela comunidade Internacional. O Premio está a permitir-lhes irem mais além e conseguirem mais resultados; são muitos milhares os cegos que readquiriram a visão graças a este Prémio. Champalimaud aplaudiria este excelente resultado que corrige as evidentes desigualdades sociais no acesso à prevenção e, sobretudo, à cura da cegueira.

D.S. – vejo que o Centro está já a navegar em velocidade de cruzeiro. Como perspetiva o futuro?

L.B. – continuaremos nesta linha de ação que tem dado frutos muito positivos e visíveis. Mas manteremos a melhor atenção ao aparecimento de novas tecnologias, em especial no diagnóstico e no tratamento do cancro, para nos mantermos na primeira linha e sermos competitivos a nível mundial; mas também no conhecimento do cérebro pois os meios de imagem não invasores progridem muito rapidamente e eu quero que os Investigadores do Centro tenham acesso rápido ao equipamento mais avançado, para que os seus resultados sejam aceites nas revistas mais exigentes. Penso que devo esta postura à dedicação e qualidade com que todos eles trabalham no Centro, à procura do desconhecido e na esperança de o encontrar.

D.S. – cara Presidente Leonor Beleza, deixe-me que lhe transmita o melhor agradecimento da HUMANIDADES por ter concedido esta entrevista para o seu jornal on-line; que espero ajude os portugueses a conhecerem melhor a Fundação e a sua Obra tão positiva e qualificada, realizada em tão poucos anos de existência.

L.B. – eu é que agradeço a oportunidade que me deram de poder mostrar o trabalho que aqui se faz, no dia-a-dia, com investigadores e com os doentes; pois toda a investigação sai dos laboratórios para os doentes e regressa dos doentes aos laboratórios, numa incessante e mutuamente fecundante troca de informações e de resultados.

Saí do Centro para o deslumbrante e vibrante Sol, nesta zona Ocidental de Lisboa, debruçada no rio, ainda livre de construções em altura, e deu-me vontade de dizer, com Campos “Ó macio Tejo ancestral e mudo, /Eterna verdade onde o céu se reflecte!”.

Porque o que acabei de ver, à beira do Tejo, é a verdade de uma Obra, o Centro, a verdade de uma Pessoa, Leonor Beleza, e a verdade de um Visionário do futuro, António Champalimaud.

Daniel Serrão

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